Agostin Tosco e a busca pela justiça pelo punk rock

04.11.2019

Agostin "El Gringo" Tosco & Jaúria: busca pela justiça, revolução e punk rock

 

Através dessas inacreditáveis chances que acontecem com os historiadores, essa personagem da História recente da Argentina cai em meu conhecimento. Por meio de uma banda de punk rock argentina cuja única citação na Wikipédia, a qual nos tornou reféns é: Jauría es una banda de rock argentino formada en 2010. (isso, em espanhol).

 

Mas creio que Jauría (cujo significado em português é Matilha) é formada por pessoas que vão além da pequena citação na Wikipédia espanhola.


O fato de essa banda falar de um (para nós) obscuro dirigente sindical argentino demonstra uma disposição de engajamento político pouco comum em bandas recentes da América Latina. Engajamento ou simplesmente reconhecimento da própria história, o que dá no mesmo na atualidade. Essa personagem é Agostin Gringo Tosco. E aqui vai um pequeno artigo sobre Tosco, em homenagem aos que buscam a justiça, como a banda Jauría.

 

Ciro Pertusi, um dos integrantes da banda, era criança quando Juan Domingo Perón voltou do exílio em Madri e retomou o poder em 1973. Também viveu o período em que Jorge Rafael Videla Redondo chegou a poder através de um golpe de estado. Redondo ficou marcado na história pelas freqüentes e gravíssimas violações aos direitos humanos durante a sua ditadura. Isso deve no mínimo, nos dizer algo.


El Gringo, como era conhecido foi um líder sindical precoce que morreu muito novo devido às perseguições que sofreu. De uma infância humilde, com dificuldade dedicou-se a leitura, por que desde cedo a alcunha de “El Gringo” o perseguia, já que a piamontes era a língua usada em casa. Vencida a barreira da língua, tornou-se um orador que contestou o sistema de ensino da escola, se tornou universitário e aos vinte anos já era delegado no sindicato de Luz e Força. Uma de suas frases mais famosa nessa era que "as vitórias mais importantes e valiosas são aquelas obtidas sobre as suas próprias fraquezas." Era definido como marxista independente, nunca participou de nenhuma das organizações de esquerda maneira orgânica.


Tosco considerou que nada e ninguém poderiam substituir as assembléias, elas eram superiores aos órgãos sociais, e que a luta não deve ser exclusivamente sobre as condições salariais. Sua luta contra a burocracia sindical era constante. Um de seus inimigos mais famosos foi José Ignacio Rucci (membro ativo da chamada Resistência Peronista. Tosco representava uma posição mais combativa e de esquerda que a de Rucci). Tosco declarou sobre isso o seguinte: “Rucci e seus discípulos são presos por seu compromisso com os detentores do poder, os prisioneiros sob custódia que são fornecidas pelo aparato policial, os presos em uma prisão da qual não pode sair nunca: a de claudicação, a indignidade e participação.” Tosco e Rucci tiveram várias passagens midiáticas, sendo uma dessas considerada antológica nos anais sindicais argentino.
Além da luta sindical em particular de seu sindicato, participaram na luta contra a ditadura liderada pelo general Juan Carlos Onganía.


Em 28 de maio de 1969, na cidade de Córdoba, houve uma rebelião popular contra a ditadura de Onganía. Trabalhadores e estudantes participaram na maioria dos casos, enfrentando o aparelho repressivo dos setores militares. Foi condenado a oito anos de prisão, mas foi libertado em 17 meses. São palavras de El Gringo sobre o Cordobazo: Foi uma rebelião operária e popular [...] surgiu da classe operária e do povo. O essencial de Cordobazo é que surge dos trabalhadores e dos estudantes e que eles saem para lutar por suas crenças.

 

Agostin Tosco esteve envolvido com grandes nomes da luta sindical na Argentina, como Pedro Milesi, com quem estabelece uma sólida amizade. Milesi participou do "Grito de Alcorta", uma greve de arrendatários da bacia cerealista argentina, escrevia em La Organización Obrera, periódico da Unión Sindical Argentina e foi candidato operário em 1946, para confrontar Juan Domingo Perón e a sua Unión Democrática. Em 1975, assiste ao enterro de Agustín Tosco.


Após a vitória do peronismo em 1973, Tosco começou a ser perseguido. Em 1974, ele teve que passar pra a clandestinidade por estar envolvido no sindicado de Luz e Força. Algum tempo depois sofre de uma doença, mas é impossível de ser internado no hospital porque seria executado quando soubesse onde ele estava. Com a ajuda de muitos e diferentes companheiros da Luz e Força e pessoas simpatizantes à sua luta, ficou escondido por mais de um ano, em primeiro lugar nas montanhas de Córdoba e foi até disfarçado de mulher para viajar a La Plata e se manter oculto.
Em setembro de 1975, caiu doente com encefalite bacteriana. Por causa a sua clandestinidade não pode ser devidamente tratado, e sua deterioração física se acelerou no final. Ao termo de outubro, foi hospitalizado em Buenos Aires, sob um nome falso. Agustín Tosco morreu em Buenos Aires em 04 de novembro de 1975, aos 45 anos. Seus companheiros levaram o seu corpo sentado no banco do passageiro de uma ambulância para a cidade de Córdoba. Oficialmente ele morreu em Córdoba em 05 de novembro.

 

 

O corpo estava escondido na casa particular de um líder lucifuercista, e depois transferida para Club Redes Cordobesas, onde ele montou a capela funerária.


Em seu funeral participaram cerca de 20 000 pessoas, apesar das ameaças da Triple A (o grupo paramilitar de direita de José López Rega, ministro do Bem-Estar Social). Quando o cortejo chegou ao cemitério St. Jerome (de Córdoba), valentões do governo, postados nos telhados do cemitério, dispararam sobre a multidão, deixando vários feridos. Um grupo de trabalhadores deixou o caixão em um cofre de fora à noite e só levou para o panteão da Unión Eléctrica, onde estão seus restos mortais até hoje.

 

- Alexandre Paiva, historiador e militante social

 

Fontes:

Arquivo do SITRAC | Mobilização política e lutas populares.

 

 #ComCausa

 

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