Meu malvado favorito

“Eu apanhava quase todo dia. Eu sofro desde que o meu filho do meio nasceu em 2002”. Esta foi a declaração dada ao G1 pela auxiliar de limpeza Vanuza de Souza Bastos que matou o marido durante uma briga no domingo em São Paulo, no dia 05 de novembro deste ano.

 

Nas redes sociais, ocorreram diversas postagens sobre o acontecido e diversas respostas às publicações. Dentre elas, inúmeras positivas e, inúmeras negativas. Existe uma máxima de que mulher ou homem que aceita tal condição gosta de apanhar. Ainda mais uma pessoa que foi casada com seu agressor por 23 anos.

 

Entre as palavras publicadas estava a palavra “masoquista”. Fazendo uma referência a trilogia “Cinquenta Tons de Cinza”, que surpreendentemente agradou a milhares de pessoas e principalmente mulheres, no primeiro filme, para os mais atentos, já denunciará a construção psicológica dos personagens. O algoz\gala do filme fora criado em um ambiente de opressão e dor e, a masoquista\mocinha, uma moça repleta de inseguranças e baixa estima.

 

Infelizmente muitos dos que comentaram negativamente sobre a “assassina” pagaram para assistir ao filme.

 

Mas, a história real de Vanuza de Souza Bastos e o filme “Cinquenta Tons de Cinza” podem ter muito mais em comum do que se possa imaginar.

 

Nos relatos da auxiliar de limpeza, Vanuza declarou que por muitos anos tentou ajudar o marido.

 

“Eu era pai e mãe dele, fui eu que criei ele. Eu tinha 16 anos e ele tinha 15 quando fomos morar juntos, mas quando meu filho do meio nasceu ele começou a mudar de comportamento”, lembrou emocionada. Eles tiveram três filhos, que hoje têm 18, 14 e 6 anos. As agressões e brigas passaram a ser diárias. "Quantas vezes a polícia não foi na minha casa? Era briga todo dia dentro de casa. Parecia que uma hora ia acabar em morte".

 

Apesar disso, ela disse que tentou diversas vezes ajudar.

 

Todas as pessoas que já foram vítimas recorrentes de violência conjugal ou familiar, foram ensinadas a amar através do sofrimento e da violência. A criança no seio familiar, não entende o que é o amor como nós adultos entendemos, mas sim as ações. O amor então para uma criança seria um abraço, um carinho a presença e não palavras. A ação familiar define o entendimento dos filhos na primeira infância. Além do perfil emocional ser formado até os 03 anos de idade.

 

Então podemos dizer que tanto o agressor e a agredido foram vítimas? Sim. Longe de falar de psicopatia, as pessoas nesta relação são passiveis de sofrimento. Quando crianças aprendemos a naturalizar nossos monstros diários, assim como “A Bela e a Fera”.  Sempre naturalizamos personagens rústicos e algozes na emocionante esperança de mudança no final da história. Em hipótese alguma a mudança real vai deixar de existir, mas, o tempo de leitura de um conto de fadas ou o tempo que assistindo um desenho da Disney, é bem menor do que o real tempo de evolução.

 

A violência é muito mais naturalizada do que se possa imaginar. Por mais que tenhamos consciência de que algo nos traga sofrimento, nosso inconsciente oriundo de toda nossa criação é o que determinará nossas ações. Assim como muitas pessoas, Vanuza tentou por todos esses anos ajudar o marido. Nas relações de violência, também existe ações de afeto. Por mais que provavelmente ela tenha sido vítima de uma desestruturada família, o seu esposo também o seria.

 

O tempo de entendimento e reconhecimento do problema é um fator determinante para a transformação. É importante que tanto o agressor e a vítima reconheçam essa lógica de violência. Muitas vezes nos focamos nas vítimas e esquecemos o agressor. Opressão, grosserias, violência psicologia e física são oriundas de formações psicológicas violentas.

 

Se você está em um lado dessa história, não tenha medo. As verdadeiras mudanças podem afugentar, pois, sair da zona de conforto, mesmo que está lhe cause sofrimento ou, sofrimento a aguem que não o merecia, é assustador!

 

Para Vanuza, o tempo de mudança acabou com a morte do marido. Para outras, o tempo de mudança acabou com suas próprias mortes. Para os que sobreviveram, o trauma.

 

Acesse a reportagem no G1 clicando no link.

 

#ComCausa

 

Fernanda T. Figueiredo, Cientista Social.

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