Nielson Rosa Bezerra

10.12.2018

Pesquisador Nielson Rosa Bezerra questiona o suposto dualismo existente entre a escravidão urbana e a rural, tomando como exemplo a região da Baixada Fluminense, em seu livro ‘As chaves da liberdade: confluências da escravidão no Recôncavo do Rio de Janeiro’ (1833-1888).

 

 

Tradicionalmente, o período no qual perdurou a escravidão de africanos no Brasil é retratado como aquele em que seres humanos eram vistos como meros objetos, sendo a chibata um dos únicos meios de “comunicação” utilizados entre o senhor e seus escravos. No entanto, mesmo em tal cenário havia escravos que possuíam certa autonomia e força para negociar com os seus senhores. Um cotidiano diferente que existiu e resistiu àquela época e que é abordado pelo pesquisador Nielson Rosa Bezerra em seu livro ‘As chaves da liberdade: confluências da escravidão no Recôncavo do Rio de Janeiro’ (1833-1888). Confira um pouco mais sobre o autor e sua obra na entrevista abaixo, concedida à EdUFF.


Seu livro parece pôr abaixo as antigas imagens do “escravo-simplesmente-vítima” e do “senhor-todo-poderoso”. Esta impressão está correta?

– Sim. Em As chaves da liberdade... apresento uma lógica oposta àquela defendida pela Escola Sociológica Paulista que, tradicionalmente, adota a tese da “coisificação” dos escravos. Essa ideia parece estar arraigada à historiografia que trata da escravidão no Brasil. Quando se afirma que o escravo é uma “coisa”, retira-se dele sua condição de ser humano e, consequentemente, sua capacidade de construir relações para além do mundo do cativeiro. Discordo totalmente disso e mostro os escravos africanos como agentes sociais protagonistas de sua própria história.

 

 

Por que o senhor estudou especificamente o período histórico compreendido entre 1833 e 1888?

- Devido ao fato de 1833 ter sido o ano de emancipação da primeira villa do Recôncavo do Rio de Janeiro. Além disso, a primeira lei que proibia o tráfico de escravos havia acabado de ser promulgada (1831), inaugurando um novo contexto na prática escravista. Essas questões de ordem local e de ordem geral nortearam o início dessa temporalidade. Já o fim da escravidão (1888) foi o que definiu o limite de minha pesquisa. Contudo, o mais relevante para mim é a possibilidade de contribuir com mais uma pesquisa sobre a escravidão no importante século XIX, quando muitas transformações ocorreram no cenário brasileiro, particularmente no que se refere à escravidão africana.

 

E qual o motivo da escolha da região do Recôncavo do Rio de Janeiro como centro de suas pesquisas?

- Uma das razões é que essa área abrange a maior parte do que hoje conhecemos por Baixada Fluminense. Há também um motivo pessoal pois, além de ser morador da Baixada, participo de um movimento que tem o intuito de resgatar e registrar a história da região. Esse movimento é liderado pela Associação dos Professores e Pesquisadores de História Clio (APPH – Clio). Outra razão é a grande quantidade de afrodescendentes que vive naquele local. Com o livro, pretendo oferecer para a maior parte da população da Baixada Fluminense um pouco de sua própria história. Além disso, vejo no Recôncavo do Rio de Janeiro, a exemplo do que acontece na Bahia, uma região representativa da escravidão africana fora dos grandes centros urbanos e dos “lugares plantacionistas”, que deram explicações clássicas para o tema na historiografia brasileira.

 

Quais as principais características da escravidão naquela região?

- Desde o século XVIII, o Recôncavo do Rio de Janeiro se caracterizou por propriedades agrícolas especializadas na produção de alimentos como farinha, arroz e feijão, além de se constituir na principal região de passagem entre os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Por conta disso, os escravos eram empregados nas lavouras e em atividades de transporte. O local era palco fundamental para a transição de mercadorias e pessoas entre o interior e o litoral. Esse contingente era formado por escravos, senhores, homens livres pobres, entre outros. Ao realizar atividades de troca, eles ressignificavam suas tradições, seus signos culturais. E nesse ponto ocorre o que eu chamo de assimetria social. Nessa região, as relações sociais eram menos padronizadas e a proximidade entre o senhor e o escravo era maior. A escravidão na região do Recôncavo do Rio de Janeiro é uma experiência de análise para se repensar a escravidão no Brasil.

 

Em que o senhor se baseia para sustentar a ideia de uma unificação ou indissociação entre a escravidão urbana e a rural?

– Não vejo unificação nem indissociação. O que acontece são confluências ou um desenho de fronteiras borradas entre a escravidão rural e a escravidão urbana. Ao longo do século XX, os historiadores se  concentraram nas diferenças entre esses dois mundos. Porém, estudando o Recôncavo, percebi a presença de características tanto urbanas quanto rurais na prática escravagista. Nesse sentido, trata-se de uma abordagem inédita, pois a historiografia tradicional não aborda essas conexões – talvez por não ter percebido sua existência.

 

A obra revela um acesso, ainda que restrito, dos escravos à Justiça. Como isso acontecia? Como era possível?

– Esta descoberta não é minha. Muitos trabalhos anteriores já mostraram as ações cíveis de reivindicação de liberdade, o que demonstra a capacidade de organização do escravo. No meu livro, utilizei essas ações, assim como processos criminais que envolviam escravos, para poder ter um panorama das diversas vozes sociais que apareciam no processo escravista. Mas, voltando à pergunta, existia sim um acesso dos escravos à Justiça. No livro são apresentados alguns casos que poderão favorecer a compreensão dos interessados pelo tema.

 

As cartas de alforria eram todas compradas pelos escravos ou havia exceções?

- Havia exceções, como as cartas recebidas como uma “gratificação senhorial” por “bons serviços” – no caso de um escravo que trabalhasse há muitos anos ser alforriado pelo fato de nunca ter tentado fugir; aquelas fornecidas por motivo de medo do senhor de ir para o inferno; cartas dadas a filhos bastardos, além da liberdade conseguida pelos cativos que aceitavam ser catequizados e pelos que acompanhavam o seu senhor até à morte. Enfim, o tema da alforria é muito amplo e, por ser muito interessante, chama a atenção do público não especializado. Entretanto, é bem difícil encontrar as fontes (cartas de alforrias) nos arquivos, o que dificulta qualquer pesquisa. Ainda assim, consegui reunir quase uma centena desses documentos com informações valiosas para o desenvolvimento do trabalho.

 

Em que As chaves da liberdade... contribui para a compreensão da história da escravidão no Brasil?

– A escravidão africana é um tema caro para a historiografia brasileira, porém está longe de ser esgotado e de ter explicações definitivas. O meu livro é uma breve provocação para se pensar axiomas explicativos construídos pela historiografia tradicional. Além disso, procuro dar lugar para a Baixada Fluminense na História do Brasil, através de uma análise da escravidão ali praticada ao longo do século XIX.

 

#ComCausa 2009

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