Sociedade lobo da sociedade

15.01.2018

Em pesquisa realizada no final do ano passado pelo Instituto Datafolha, e divulgada na primeira quinzena de 2018, mostra que a maior parte da população mantém um posicionamento reacionário sobre várias questões, mesmo as que as que as coloquem na alça de mira de potenciais vítimas das próprias convicções.

 

Os temas principais da pesquisa foram os que mais geram debates e polêmica na sociedade, principalmente em tempos de maniqueísmo polarizado.  Em dados estatísticos, os resultados são preocupantemente incoerentes considerando que boa parte dos brasileiros, cerca 65%, está na faixa que acumula a chamada ‘baixa renda’ até a ‘faixa da miséria’. Que, além da capacidade financeira de acesso a bens duráveis, considerando somente o viés econômico, estes são os de menor escolaridade, os que têm pouco acesso a serviços públicos e, consequentemente, são as principais vítimas das violações de direitos.

 

 

Na questão da violência onde a população mais pobre fica mais à mercê - seja dos conflitos interpessoais, a ação dos grupos criminosos (na sociedade e de agentes do Estado) -, até de um ineficiente sistema judicial para quem não pode pagar os custos processuais. Temos 57% favorável à pena de morte! Já na questão do porte de arma de fogo, 42% da totalidade acreditam que devem ter acesso a armamento para enfrentar a violência com as próprias mãos. Mas destaca-se que o índice de aprovação de uma corrida armamentista social aumenta conforme a renda. Pelo óbvio, quem tem mais posses patrimoniais acredita que tem o direito de usar uma arma para defendê-los, assim chegamos a quase 50% de aprovação pelos mais ricos.

 

Outros temas geram controvérsias e retratam uma distorção entre a realidade e a opinião. Considerando que as regiões mais pobres são as mais impactadas com a questão do controle territorial de grupos que fazem o comercio de drogas ilícitas, além da violência gerada direta ou indiretamente pela ‘guerra às pessoas’ destas comunidades - afinal, nunca o blindado “caveirão” invadindo festa ‘Rave’ e a polícia não dá tiro em pé de maconha ou coca, atira nas pessoas - temos 66% do total dos brasileiros a favor do proibicionismo apesar da sociedade conviver com o uso massivo de álcool, tabaco e remédios “tarja preta”.

 

Temos também um contrassenso em relação à questão do aborto, no qual 57% da população acha que a mulher deve ir para cadeia. Destaca-se que exatamente na faixa de maior incidência de gravidez não planejada, entre os estudantes do ensino fundamental - os que recorrem as clínicas clandestinas de aborto em piores condições -, cerca de 71% acredita que se deve manter a proibição. Já os que ganham acima de 10 salários mínimos são os que mais defendem a regulamentação da interrupção legal da gravidez, somente 26% são favoráveis a manter a criminalização.

 

Quem atua na ponta, literalmente nas ruas até as instâncias de poder político, empiricamente sabe destes posicionamentos. Pois, apesar dos milhões retirados da miséria, continuamos a ter uma população racista, homofóbica, xenofóbica, machista, que promove a intolerância religiosa e o preconceito territorial. Que acha inofensiva a letra que promove “taca bebida, depois estupra (interpretação do autor deste artigo) e abandona na rua”, mas se indigna com a união civil de pessoas do mesmo sexo.

 

Além dos preconceitos historicamente construídos, devido a alguma mobilidade social conseguida na ultima década, acredito muitos tentam reafirmar sua suposta nova posição na pirâmide social reproduzindo posicionamentos reacionários, como se fizesse parte dos estratos da sociedade que ainda fazem cara feia quando estes dividem as poltronas dos aviões.

 

Assim temos o oprimido, oprimindo o oprimido, ou, parafraseando Thomas Hobbes, o homem é o lobo do homem: a sociedade aceita e promove situações em que é violada. Para reverter, devemos usar todos os espaços de debates, da pessoa ao lado no banco de ônibus, passando pelas redes sociais de internet até escolas, universidades e poder público. Talvez assim, em alguns anos, possamos converter corações e mentes para uma sociedade com mais cultura de direitos que não legitime o próprio extermínio.

 

- Adriano Dias é fundador do ComCausa

 

| Originalmente publicado no jornal de Hoje, em janeiro de 2018.

 

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